O sistema financeiro brasileiro permaneceu resiliente diante de choques econômicos, mas enfrenta novos desafios decorrentes da digitalização, do crescimento do mercado de capitais e do aumento do endividamento de famílias e empresas. A avaliação consta no relatório Financial System Stability Assessment (FSAP), divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Segundo o FMI, desde a última avaliação, realizada em 2018, o sistema financeiro brasileiro passou por mudanças significativas. Embora continue concentrado nos bancos — com dois dos seis maiores controlados pelo Estado —, a entrada de instituições digitais ampliou a concorrência e elevou a eficiência dos serviços bancários.

O relatório também destaca o forte crescimento dos mercados financeiros, impulsionado pela expansão dos mercados de títulos corporativos e derivativos, pelo avanço do mercado de crédito estruturado e pelo aumento da participação de investidores de varejo. O Pix é apontado como um dos principais vetores de transformação dos meios de pagamento no país, enquanto o mercado de criptoativos segue em expansão.

Na avaliação do Fundo, o sistema financeiro é, de forma geral, resistente a cenários adversos. Os testes de estresse indicam que os bancos de importância sistêmica registrariam perdas mais relevantes em situações extremas, mas permaneceriam com níveis de capital acima dos mínimos regulatórios. O FMI observa ainda que o sistema apresenta elevada interconexão, principalmente pela exposição comum aos títulos da dívida pública, enquanto os riscos de liquidez permanecem administráveis.

O organismo reconhece avanços na implementação das recomendações feitas em 2018, mas afirma que ainda existem desafios relacionados à escassez de pessoal, limitações legais e falta de autonomia de supervisão. Segundo o relatório, esses fatores reduziram a intensidade da fiscalização bancária e aumentaram a dependência de entidades autorreguladoras no mercado de capitais.

O FMI também considera robusto o programa de supervisão de segurança cibernética do Banco Central, em razão da rápida digitalização do sistema financeiro. Por outro lado, aponta que ainda existem lacunas na supervisão do mercado de criptoativos.

Entre as recomendações, o Fundo defende o monitoramento contínuo dos bancos sistêmicos, a ampliação da supervisão sobre novos segmentos do mercado financeiro e o fortalecimento das ferramentas macroprudenciais para reduzir riscos associados ao endividamento das famílias. O relatório também recomenda ampliar os quadros técnicos dos órgãos supervisores, conceder autonomia orçamentária plena ao Banco Central e aprovar uma nova legislação para modernizar o regime de resolução bancária.