As casas, de moradia ou de comércio, com o correr do tempo, parecem encarnar a personalidade de seus ocupantes, tornando-se quase como entes queridos. Quanto mais antigas, mais personificadas, acolhedoras e amorosas ficam as moradias ou estabelecimentos. Suas paredes e teto guardam, como um repositório, histórias e memórias, emoções, sentimentos, risos e também lágrimas, irradiam calor humano e falam, em seu silêncio, diretamente aos nossos sentidos. Sim, as casas também têm alma.

Na cidade de Canindé, no coração do sertão cearense, havia até pouco tempo uma casa assim, que acumulava histórias, muitas histórias; emoções, muitas emoções; prosa e poesia, anedotas e folclore; e, por conta de tudo isso e muito mais, foi um celeiro autêntico de muita tradição. Chamava-se Casa Marreiro e ficava na esquina do antigo mercado público da cidade, olhando a certa distância as torres imponentes da basílica que abriga o santuário franciscano.

Certa vez, alguém a definiu como “o museu de quase tudo do sertão”. Isto mesmo. O sertão inteiro, com seus modos e costumes, parecia caber dentro da Casa Marreiro. O vaqueiro, a roupa de couro, o aboio, o caboclo roceiro, o cantador de feira, o cantador de coco, o tocador de berimbau, o tocador de pé-de-bode, o reisado, o puxador de roda e a farinhada estavam emblematicamente presentes na Casa Marreiro. Melhor dizendo, o Nordeste cabia no coração da Casa Marreiro.

Ali dentro, de envolta com os artigos de venda – roupa e chapéu de couro, chocalho, alpargata currulepe, vara e anzol, peixeira e bainha e tanta coisa mais – um painel exibia objetos de prender a curiosidade: o cadeado gigante, a chave também gigante, o casco de peba talhado em madeira, o ninho comprido de japu e mais um catatau de coisas do sertão. Encimando o painel, o retrato, em preto e branco, do poeta Raimundo Marreiro, idealizador desse verdadeiro empório que sobreviveu por quase nove décadas.

Tonico Marreiro, filho de seu Raimundo e D. Laura, costumava repetir que, na Casa Marreiro, havia até bainha pra chifre e suspensório pra cobra.

Como um parque de diversão, conquanto fosse uma casa comercial, a Casa Marreiro embelezava os transeuntes logo na chegada. Acima de sua porta principal, girava o Carrossel do Vaqueiro, equipamento rústico e engenhoso, produto da criatividade de seu Raimundo. As miniaturas do boi, dos cavalinhos e dos vaqueiros de mão erguida, tangendo o badalo do pequenino chocalho, à proporção que a girândola rodava: tilim-tilim, tilim- tilim... eram um encanto para olhos e ouvidos.

Já do lado de dentro, uma personagem ilustre: Gilda, a distinta “Boneca do Marreiro”, uma loira de estatura acima da média, batom vermelho, vestido estampado, exposta junto ao balcão, recepcionando quem chegava. Do seu pódio, ela só saía duas vezes ao ano: no carnaval, como a foliona mais charmosa da cidade, e como a dama mais simpática dos folguedos de São João.

Minha meninice, minha juventude e hoje minhas têmporas já ficando encanecidas passaram pelo corredor da Casa Marreiro. Naquele recinto, tive o privilégio de ouvir, sentindo o cheiro do couro curtido, histórias e mais histórias, de tipos populares e de tempos aquém do meu tempo: de seca e de enchente, de fartura e de magrém, de bravura e de brandura, de promessas pagas a S. Francisco, causos, anedotas, versos e repentes.

Estudante ginasial, testemunhei naquele pequeno salão o professor poliglota Laurismundo Marreiro, também filho de seu Raimundo e D. Laura, dialogando em inglês com os gringos visitantes, enquanto, a um só tempo, dialogava, no nosso linguajar sertanejo, com a gente simples, fregueses habituais da casa. Ali também testemunhei o poeta Natan Marreiro, sequenciador do velho empório, declamando, eloquente, versos de cordel de sua autoria e de outros poetas populares.

O destino natural de tudo, porém, neste mundo, é o começo, o meio e o fim. De modo que a velha Casa Marreiro também viu chegar o momento amargo do seu fim. Há poucos dias, passando em frente, assisti, por alguns momentos e com dor na alma, aos estertores da antológica Casa Marreiro. Lá de dentro, ao ritmo do martelo e da picareta, ouvia-se o fragor das paredes e do teto indo abaixo, depois de tão longo tempo quando abrigaram tantas histórias e lendas e alegrias. Senti, dentro de mim, mais do que nunca, o peso do verso melancólico de Adoniran Barbosa: “Cada tábua que caía doía no coração.”

E, de olhos fechados, procurei, por alguns instantes, reviver em minha memória antiga de menino, “aqueles dias de uma luz tão mansa”, quando, agarrado à mão de meu pai, apreciava, perplexo e cheio de encanto, o movimento do carrossel e seus vaqueirinhos correndo atrás do boi: ti-lim, ti-lim, ti-lim, ti-lim...