Enquanto acompanho na tela os lances em jogos da Copa do Mundo: gols, vitórias e derrotas, desvio minha atenção por alguns instantes para um conteúdo imaterial e presente o tempo todo e em tudo, qual seja, o próprio tempo.

O imperativo tempo participa, efetivamente, durante todo o torneio mundial, envolvendo emoções, adrenalina, brados de vitória ou gemidos de lamentação, conforme o sucesso ou a ruína das equipes nas arenas.

Já de início, cada partida é dividida em dois tempos. Se houver prorrogação, mais dois tempos de menor tamanho. O relógio, antes do apito, é o acessório fundamental do árbitro. Também na tela da tevê, ali está o cronômetro, impondo ao telespectador o status do tempo durante todo o confronto, minuto a minuto, segundo a segundo.

A bola rola no gramado, junto com o tempo cronológico (adjetivo filho de Cronos, o deus do tempo). E o tempo cronológico parece rolar mais rápido que a bola. Duas equipes em campo, em momento crítico como final de segundo tempo, parecem lutar mais contra o tempo do que mesmo entre si.

Aos quarenta e cinco minutos, no confronto fatal Brasil x Noruega, domingo passado, a arbitragem resolve dar mais dez minutos de acréscimo. O Brasil, em desvantagem, agradece e corre contra o tempo, que se esgota, que se esvai como o precioso sangue numa hemorragia.

Nas arquibancadas do Metlife Stadium, em Nova Jersey, milhares de brasileiros. Fora dali, milhões de patrícios, olhos vidrados na tela, mãos postas, orações íntimas, correntes coletivas, nervosismo, coração acelerado, diante dos paroxismos da partida. O tempo, cada vez mais pressuroso, relativístico. O torcedor, cada vez mais opresso, acuado.

Na beirada dos acréscimos, quando a Seleção já sentia a amarga ansiedade da possível eliminação, o adversário nórdico recebe na quina da área, chuta rasteiro e cruzado, no seu caso, folgando zombeteiramente do tempo, e supera, uma vez mais, o goleiro brasileiro.

Aos 54 minutos do segundo tempo, a Seleção Brasileira reage e desconta em cobrança de pênalti. Mas já era tarde demais. Noruega, dois. Brasil, um.

Fomos, em suma, derrotados por dois inimigos: a equipe adversária e o Tempo, em cuja linha já se contam, desastrosamente, 24 anos sem saborear a vitória no Mundial. Agora, é aguardar novamente o tempo, para 2030. E mesmo que, na Copa do Mundo do início da próxima década, venha o hexa tão sonhado, não resta dúvida de que o Tempo, senhor de tudo, será sempre o grande – e eterno – campeão.