O governo prepara uma nova edição do Desenrola em um momento que não é aleatório. A inadimplência segue elevada, o crédito continua caro e a economia dá sinais de desaceleração mais por restrição financeira do que por falta de demanda.
A fala de Luiz Inácio Lula da Silva, via equipe econômica, indica uma leitura pragmática. Antes de estimular consumo, é preciso reabilitar o consumidor.
O ponto central não é renegociar dívidas. É devolver capacidade de consumo para uma parcela relevante da população que hoje está travada. Sem isso, qualquer ciclo de queda de juros chega com efeito reduzido.
Há uma mudança sutil de estratégia aqui.
O primeiro Desenrola teve um caráter mais emergencial, quase corretivo. Agora, a lógica é mais preventiva e calibrada com o ciclo econômico. O governo tenta alinhar três movimentos: redução da inadimplência, melhora gradual do crédito e eventual queda da taxa de juros.
Se funcionar, cria um efeito encadeado.
Menos inadimplência melhora o balanço dos bancos. Bancos com balanços melhores expandem crédito. Crédito mais acessível encontra uma base de consumidores novamente elegível. E o consumo reage sem necessidade de estímulos fiscais mais agressivos.
É uma engenharia indireta.
Mas há limites claros.
Renegociar dívida não cria renda nova. Apenas reorganiza o passado. Se o ambiente de juros continuar restritivo por mais tempo ou se a renda não acompanhar, o risco é apenas postergar o problema.
Além disso, há um componente político inevitável. Programas de renegociação têm apelo imediato e efeito rápido na percepção das famílias, especialmente em momentos de pressão no custo de vida.
O timing, portanto, importa.
Lançar o programa antes de uma queda mais clara dos juros pode antecipar o alívio. Lançar depois pode potencializar o efeito. O governo parece buscar esse ponto de equilíbrio.
No fundo, o novo Desenrola é menos sobre limpar o CPF e mais sobre destravar a economia real.
A dúvida é se isso será suficiente para mudar comportamento — ou apenas comprar tempo.
Carlos Augusto
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