Na política, o microfone é mais revelador do que parece. Ele não amplifica apenas a voz, expõe coerência, memória e conveniência. Ontem, servia para calar. Hoje, vira palco, homenagem e aplauso público.
É curioso como alguns discursos mudam quando o resultado das urnas redefine quem segura o som. Quem antes atuava nos bastidores para conter críticas, hoje aparece sorridente nas fotos oficiais, recebe elogios públicos e participa da celebração como se nunca tivesse escolhido um lado.
Não se trata de arte, nem de reconhecimento cultural. Trata-se de narrativa. De como o poder reorganiza afetos, silêncios e conveniências. O que antes era ameaça passa a ser virtude. O que era incômodo vira “colaboração”.
A comunicação institucional exige memória. E a memória pública não se apaga com flash, legenda bonita ou medalha no peito. Quem ontem foi impedido de falar não esquece, ou não devia esquecer. E quem assistiu, muito menos.
No fim, o microfone continua o mesmo. O que muda é quem está com o dedo no botão, e quem aprende rápido demais a cantar conforme a música.
