Confesso que também fiz minha fezinha concorrendo ao maior prêmio lotérico já realizado no Brasil. Em 31 de dezembro, data marcada para o sorteio, as duas agências lotéricas da minha cidade, durante todo o dia estiveram lotadas. Afinal, era mais de um bilhão de reais em jogo. E é possível que nada tenha mais chamado a atenção do povo brasileiro na reta final de 2025.
No começo da tarde, portanto, lá estava eu, na fila em que se viam pessoas humildes, homens e mulheres, desafiando a própria sorte, fazendo, em sua maioria, apostas simples como a minha, de apenas seis reais. Do lado de dentro dos guichês, atendentes lotéricos, digitando freneticamente nas máquinas eletrônicas, desdobravam-se para dar conta da demanda.
Quem ali de nós, indagava-me, poderia ser o novo bilionário ou milionário brasileiro? Seria uma senhorinha de cabelo branco, que avistei na fila ao lado, dos que não pegam fila, que embora assim era uma fila extensa? Ou seria o jovem à minha frente, segurando um único volante da disputada loteria? Ou aquele cidadão, que conheço apenas de vista, cabisbaixo, pacientemente na fila que ia da calçada ao guichê? Ou seria mesmo eu?
O que se sabe é que, diante das probabilidades matemáticas, qualquer um de nós ali, jogando apenas seis dezenas, tinha uma única chance, dentre 50 milhões, de ser o ganhador. Ou seja, uma proporção de apenas cerca de quatro pessoas, para os mais de 200 milhões de compatriotas.
Os congestionamentos, por sua vez, não se concentraram apenas nas agências lotéricas de todo o país, mas também dentre os milhões que optaram por fazer suas apostas pela internet, chegando a atingir mais de 100 mil transações por segundo.
O valor em jogo, por outro lado, é como que uma afronta para a imensa parcela de brasileiros, operários e operárias dos diversos setores da atividade, assalariados, sempre às voltas, durante o ano todo, com as despesas básicas do dia a dia.
O sorteio tentador da virada de ano despertou sonhos de milhões de brasileiros, alimentou temporariamente as mais coloridas ilusões, reacendeu as mais verdes esperanças, povoou de planos a cabeça de cada apostador, tirou do bolso de uns uma fortuna em apostas, e do bolso de outros, minguados seis reais, dentre os quais, os meus com que paguei minha aposta, que, depois de tudo, não teve sequer um único acerto.
Até digo: felizmente! Afinal de contas, o que fazer com tamanha bufunfa? Sumir do meu meio, temendo as consequências de ser possuidor de tanta grana? Trocar o sossego por uma vida tumultuada e cheia de tensões? Não poder mais sentar de costas para a rua, no bar da esquina? Não mais poder sentar tranquilamente no banco da pracinha? Deixar, de uma hora para outra, de andar na rua, de peito aberto e cabeça erguida?
Não! Confesso que não ambiciono, nunca, ser detentor de tanto níquel. Nem da metade. Nem da metade da metade. Meus sonhos, abstrações com as quais por vezes me entretenho como um passatempo, são poucos e singelos. Talvez o mais ousado deles seja dar um giro pelo Velho Mundo, pisar o solo de cidades milenares, ver de perto palcos onde se deram fatos históricos, contados nos livros e nos documentários de tevê.
Portanto, Louvre, Torre Eifel, Veneza, chão de Camões, terra de D. Quixote, berço de Platão, pátria dos faraós… ainda não foi desta vez.

