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O que há de novo
Autor: Pedro Paulo Paulino
Atuante tanto na literatura de cordel quanto na poesia erudita, com diversas conquistas em prêmios literários de âmbito nacional. Além de seu trabalho como escritor, ele também é redator e diagramador de jornais, revistas e livros, atuando dentro e fora de Canindé. Como radialista, Pedro Paulo apresenta um programa aos domingos, focado em resgatar sucessos da Velha Guarda.
O que motiva esta crônica trata-se, em suma, de matéria apimentada para um bom conto de terror ou alguma outra história macabra, com ingredientes colhidos, ainda quentinhos, diretamente na fonte das escabrosidades da vida real. Na pena de um Edgar Alan Poe, teríamos aí mais uma de suas Histórias Extraordinárias. Com Mary Shelley, dona de Frankenstein, não perderíamos também uma atraente narrativa de terror. Todavia, contentemo-nos, pelo menos até o momento, com esta modesta crônica que trata de um fato registrado nesta semana, o qual, dada a sua bizarrice, ganhou o universo midiático, escapou das fronteiras do país e alcançou…
O processo eleitoreiro nos cafundós do sertão tem características bem diferenciadas do que acontece nos nichos urbanos, em tempo de eleição. O voto do eleitor matuto ainda é disputado dentro de padrões meio anacrônicos, naquela base da dinâmica do compadrio, da camaradagem e da visita acalorada do candidato, que uma vez eleito, sacode o pó das alpercatas e passa quatro anos em profunda e silenciosa ausência. O anúncio da vinda de algum candidato ao grotão mais remoto enche de expectativa o lugar, onde o tempo corre moroso e quase sem novidade. Nos arruados e vilarejos, os comícios viram atrações e…
Na manhã da quarta-feira que passou, assisti a cenas autênticas de guerra. E não era na tevê ou internet. Era por aqui mesmo. Acontece que chovia forte, porém, sem estardalhaço de trovão. Ouvia-se apenas a orquestra da pancada d’água tocando no telhado, acompanhada da sonoridade alegre das biqueiras, derramando fartamente o conteúdo líquido que recebia das nuvens. O brilho solar, timidamente transluzido pelo nevoeiro, fazia, da paisagem bucólica do campo, um cartão-postal quase feérico. Porém, de repente, aquele alvoroço! Aquele alarido! Aquele rebuliço! É então que, da minha janela, percebo, lá em cima, no galho mais alto de uma algarobeira,…
A Sexta-feira Santa chega, e com ela, regressa à minha memória uma enxurrada de lembranças de uma época em que este dia já foi o momento mais solene do ano. É como agora abrir um álbum de fotografias amareladas pelo tempo, testemunhando costumes que o próprio tempo tratou de abolir. Falo da Sexta-feira Santa da minha infância, na roça onde nasci e cresci, no decorrer do final dos anos setenta e começo dos oitenta do século que passou. Era um dia de penitência, puro, imaculado, inocente. Para começar, nas casas sertanejas, tinha-se por hábito, durante toda a Semana Santa, virar…
Por Pedro Paulo Paulino Foto: Tapio Haaja O escritor maranhense Humberto de Campos (1886-1934), em uma das centenas de crônicas que escreveu, refere-se a um lugar chamado “O país das sombras felizes”. Na descrição do renomado cronista, tal paraíso encontra-se numa estrela remota no Universo, onde todos os seus habitantes, sem exceção, levam a existência mais feliz que poderia haver no mundo. Agora, saindo do campo fértil da imaginação e pisando o solo firme da realidade, sabe-se que há, de fato, um lugar parecido com esse, onde de forma global todos os seus inquilinos são felizes. Esse lugar, conforme notícia…
As chuvas que refrescaram o Semiárido cearense provocaram o ressurgimento da flora nativa. Diversas espécies vegetais aparentemente desaparecidas, num átimo, levantaram-se do chão fulminado pelos incontáveis dias de muito sol. A caatinga cinzenta trajou-se de verde e tornou-se copiosamente entranhada de pequenos vegetais que se enroscam nas plantas de porte mais alentado, tais como a Jurema, o Marmeleiro, o Umbu, o Pereiro, a Umburana e, mais proeminente ainda, o Pau-branco. A caatinga atinge, então, o estágio de “mata fechada”, na definição do sertanejo. Esse conjunto de gramíneas, arbustos e outros vegetais compõe um cenário harmonioso e alegre, com a…
Em face de sua importância no cotidiano e na vida inteira de todos nós, podemos afirmar com garantia que todo dia é dia da mulher, aqui e alhures. E não só por isso, mas, sobretudo, pela sua grandeza, beleza e atrativos físico e emocional, todo dia é dia da mulher. Mãe, esposa, companheira, sogra, filha, irmã, madrinha, amiga, em virtude dessas presenças indispensáveis ao nosso convívio, devemos proclamar cada dia do ano como o dia da mulher. Ainda sendo assim, não resta dúvida, que um dia reservado no calendário e dedicado especialmente a elas é uma homenagem simpática, justa e…
Em nosso cotidiano, o calendário é um instrumento fundamental. Quase tudo que vamos fazer depende, logicamente, do calendário. Somos servos do calendário. Das fases da Lua às efemérides, muita coisa está contida neles. De tão presente, útil e indispensável, nem nos damos conta, em nossa vida prática, de como surgiu o calendário ou os calendários, visto que há vários deles. E não é agora que vamos nos deter em pormenores acerca das origens calendáricas. Basta saber, no geral, que o surgimento dessa ferramenta estritamente humana remonta a séculos antes da Era Cristã, e que o mais recente sistema de divisão…
Eles despertam com o amanhecer. O mais festivo e canoro é o Cardeal, que entre nós é mais conhecido como Galo-de-campina. É o seresteiro comum das manhãs, em especial, na estação das chuvas. Seu canto mavioso espalha-se de todo pelos ares, avisando aos demais viventes ao seu redor que o dia está começando. Com o crescer das horas, ecoa, inimitável, a voz da Fogo-apagou, cujo nome é uma onomatopeia da sua própria cantiga. Já aquele outro, de onde quer que ele esteja, impossível é não se ouvir sua canção amorosa: o Bem-te-vi, o indiscutível tenor da mata. Na apresentação dessa…
Música e perfume, sabemos, marcam momentos para sempre. A essa diminuta lista eu acrescentaria a chuva. Pelo menos para nós habitantes do quase deserto, onde as benesses do céu são raras, a volta das chuvas traz consigo uma enxurrada de gratas lembranças que nos remetem a momentos mágicos, em especial, aos dias da nossa bendita infância. Na transformação radical do clima, há um choque térmico nas emoções. Relembranças saborosas de instantes congelados na memória, e que de súbito vêm à superfície dos sentimentos, transportando-nos para algum lugar do passado – às vezes nem tão distante. Imagens de alguns outros tempos.…
