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O que há de novo
Autor: Pedro Paulo Paulino
Atuante tanto na literatura de cordel quanto na poesia erudita, com diversas conquistas em prêmios literários de âmbito nacional. Além de seu trabalho como escritor, ele também é redator e diagramador de jornais, revistas e livros, atuando dentro e fora de Canindé. Como radialista, Pedro Paulo apresenta um programa aos domingos, focado em resgatar sucessos da Velha Guarda.
Caminhando pela rua, numa dessas manhãs ensolaradas, de súbito veio-me à lembrança a figura de um personagem típico da paisagem urbana, e hoje em dia quase desaparecido: o vendedor de picolé. Aquele mesmo que, infatigavelmente, empurrava o carrinho anunciando, com voz rasgada: “Ó o picolééé!” “Ó o picolééé!”. E completava o reclame com a lista de sabores: “ Tem picolé de coco, abacate, morango, leite, creme, maracujá, abacaxi…”. E seguia, rua arriba, rua abaixo, empurrando o carrinho de duas rodas, repleto de picolé, numa faina constante. Dentre todos, um conheci, com seu boné meio atravessado na cabeça e um sorriso…
Comemorou-se em 23 de abril o Dia Mundial do Livro. A efeméride trouxe-me à lembrança o vulto anacrônico de um vendedor ambulante de livros, perfilado por mim nesta crônica. Eu só o vi uma vez, em 2017, durante os festejos religiosos de Canindé. Pequenas montanhas de livros expostas no porta-bagagem aberto do carro. Um outro tanto espalhado na calçada, bem no centro comercial da cidade, em meio aos transeuntes, quase todos indiferentes. Volumes usados, de literatura, história e também livros técnicos, afora revistas e outras publicações. Velhas enciclopédia e coleções. Enquanto eu passava em revista o estoque e adquiria alguns…
Encontrei-a em algum dia do ano de 2019. Filhotinha, abandonada e cega. Foi num restaurante, onde eu acabava de sentar para o almoço. E ouvi, distante, um miado, mais um grunhido do que um miado, ali por perto da minha mesa. Suspendi os talheres e agucei a audição, para identificar de onde vinha aquele pedido de socorro. Até que localizei a origem. Era um filhote de gato, abandonado, que parecia mais um rato de esgoto. Botei pedaços de carne no chão. O garçom chega e diz: “ele não vai encontrar a comida, porque é cego”. Coloquei-o então em cima da…
Na manhã da quarta-feira que passou, assisti a cenas autênticas de guerra. E não era na tevê ou internet. Era por aqui mesmo. Acontece que chovia forte, porém, sem estardalhaço de trovão. Ouvia-se apenas a orquestra da pancada d’água tocando no telhado, acompanhada da sonoridade alegre das biqueiras, derramando fartamente o conteúdo líquido que recebia das nuvens. O brilho solar, timidamente transluzido pelo nevoeiro, fazia, da paisagem bucólica do campo, um cartão-postal quase feérico. Porém, de repente, aquele alvoroço! Aquele alarido! Aquele rebuliço! É então que, da minha janela, percebo, lá em cima, no galho mais alto de uma algarobeira,…
As imagens de uma onça-pintada encurralada pelas paredes de um muro, em importante cidade do Maranhão, circularam esta semana nos principais canais de mídia do país. O animal escapuliu de seu habitat e entrou acidentalmente na cidade, de onde, perdida e atônita, buscava sair. Uma força-tarefa envolveu-se na captura da fera, empregando diversos recursos de tecnologia. Enquanto foi filmada por circuitos de câmeras, era possível notar a aflição do felídeo, isolado do seu mundo natural e completamente deslocado no território da selva humana, com seus tugúrios de pedra e cimento e toda a parafernália do mundo artificial. O susto e…
Havia cinco anos, o mundo inteiro estava mergulhado no abismo provocado pela pandemia do Coronavírus. Quando a notícia da peste espalhou-se por todos os recantos da terra, foi como se tivessem soado as sete trombetas do Apocalipse. Foi a primeira vez, no mundo moderno, que a humanidade viu-se confrontada com as ameaças terríveis causadas por ser microscópico de ação letal. Costumes, hábitos, rotinas, relacionamentos foram, de súbito, alterados drasticamente. A pandemia afetou de modo severo todos os setores da atividade humana. Passados agora cinco anos, e graças ao surgimento em tempo recorde da vacina de combate ao vírus, os seres…
O mundo acompanhou ao vivo esta semana, pelos canais de mídias, as cenas do resgate de astronautas retidos há meses muito acima da Terra, a bordo da Estação Espacial Internacional. A permanência no espaço, prevista para sete dias, por algum motivo transformou-se numa gestação de nove meses a uma altura de 400 quilômetros, cujo parto aconteceu na noite recente de 18 de março. Depois de uma viagem de quase 17 horas, a cápsula de socorro, com seus ocupantes, pousou suavemente no mar da Flórida, onde um navio os esperava. Suni Williams e Butch Wilmore mostravam-se ótimos e sãos. O regresso…
Sob a brisa mansa e acolhedora da Serra do Machado, no coração do Ceará, dorme um monstro! Por absurdo que isso possa parecer, ali, naquele recanto prenhe de natureza, habitado pelas aves e por camponeses simples, adornado pelas folhas e as flores das árvores nativas, dorme um monstro feroz; um monstro dorme no seio da terra fértil daquela região serrana. No aconchego bucólico e tranquilo da serra, o monstro hiberna ao longo de incontáveis eras. Ninguém dali o incomoda nem o chama, embora saibam seu nome e tenham receio até de pronunciá-lo. Ele atende pelo nome de Urânio. Todavia, Urânio,…
A entrega do Oscar em 2025 agitou o mundo e, em particular, o Brasil, que pela primeira vez tem uma produção cinematográfica premiada com a celebrada estatueta. Ainda estou aqui, filme de sucesso, originado de livro do mesmo nome, foi o pioneiro nacional na categoria Melhor Filme Internacional. Fenômeno de mídia, a expectativa em torno do longa-metragem, nos dias mais recentes, crescia à medida em que se aproximava a data da cerimônia de outorga da maior premiação do gênero, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sediada no Norte da América. E desde que se diz que por aqui tudo…
Fiquei pra lá de contente quando descobri o nome daquela árvore majestosa que sempre me prendeu o olhar. De grande porte, tronco robusto, copa altaneira e frondosa, raízes vigorosas fincadas no chão como garras de um gigante, ela se distingue ao longe do conjunto da flora de uma cidade cravada no meio do sertão. Não faz muito tempo, indaguei a um desconhecido de cabelos brancos, que avistei recostado no tronco da árvore e usufruindo a sua sombra, se ele sabia o nome dela. Disse-me, quase resmungando, que a conhece há pelo menos uns cinquenta anos, sem lhe saber o nome…
