No repertório de minhas crônicas já publicadas aqui, pelo menos duas falam de maus-tratos a animais: “A lenta agonia e morte de Joca” e “Mendigos de quatro patas”. Agora, o drama de um cão morto com requintes de crueldade ocupa o noticiário nacional há dias e comove todo o país. A barbárie aconteceu em quatro de janeiro, numa área nobre de Florianópolis. Os acusados de torturar o animal são apontados como quatro adolescentes filhos de papaizinho.
Orelha, como era chamado o miserável animal, tinha dez anos e tornou-se um cão comunitário e mascote do bairro, sendo querido por todos, exceto pelos seus carrascos que o torturam até a morte. Embora socorrido para uma clínica veterinária, Orelha não teve mais forças para reagir aos ferimentos graves.
“Dois dos adolescentes permanecem em Florianópolis e tiveram celulares e computadores apreendidos para perícia. Outros dois viajaram para os Estados Unidos logo após o episódio, em uma viagem que a defesa afirma ter sido ‘pré-programada’ para a Disney”, destaca o noticiário.
Ou seja, não vai dar em nada. Como não vão dar em nada os casos corriqueiros e diários, em todo o país, de maus-tratos e tortura a cães e gatos de rua ou mesmo de casa. Até porque, autoridades alertam que há uma plataforma no ambiente digital, onde o negócio é expor maus-tratos e tortura de animais.
Uma pessoa que se ocupa em monitorar os grupos nessas plataformas, garante que, pelo menos trinta cães e gatos por noite são torturados e mortos. Ela fez inclusive um vídeo para dizer que, só nesta semana, viu um cachorrinho filhote ter os membros amputados ainda vivo. “As pessoas não têm ideia do que está acontecendo.”
E não só da prática de torturar e matar animais se ocupa a legião diabólica. Humanos também estão na mira desses assassinos. “Em março do ano passado, um adolescente do Rio de Janeiro incendiou um morador de rua para transmitir ao vivo pela internet.”
Uma juíza que se dedica ao estudo dessas excrecências da sociedade, observa: “crianças e adolescentes estão sendo expostos a conteúdos de extrema violência, e isso causa um fenômeno psíquico-neurológico chamado dessensibilização da violência. Pessoas que começam a olhar para a violência com muita frequência — sejam cenas, imagens, fotos, vídeos —, depois de um tempo de exposição rotineira, perdem a sensibilidade. Começam a não achar aquilo tão asqueroso, tão revoltante; já não causa a mesma repulsa”.
Que tipo de prazer pode alguém sentir com a dor alheia, em particular, a dor de animais que não sabem falar, pelo menos para clamar por socorro? Respondam, demônios de carne e osso, nascidos e criados em berço de ouro!
Pobre Orelha. Considerado, em sua espécie, como o melhor amigo do homem, encontrou no homem o seu pior e mais feroz inimigo.

